Cronicas da realidade.
Quinta Feira, meio-dia e quarenta e cinco. Estava eu terminando de organizar esse blog que vos escrevo.
1 hora. Parti para mais uma de minhas costumeiras remadas de kayak na Baía de
Guanabara, defronte a meu lar. Ao entrar na água tudo parecia normal. Ainda não sabia o que estava para acontecer. O mar estava perfeito para essa prática: liso e claro (acreditem).
Começando a remada, estranhamente, decidir mudar meu itinerário. Usualmente remo até a praia do Morcego ou até a praia do Adão e Eva, que na verdade são duas praias, mas não sei se a que vou se chama Adão ou Eva. Contudo, nesse surpreendente dia, resolvi ir até o campus da UFF, no Gragoatá.
No caminho pude ver duas tartarugas cabeçudas e uma estranha - mas linda - ave. Nunca a avistara antes. Estava sob as pedras, em frente ao Forte do Gragoatá, me olhando continuadamente. Parecia com uma garça, mas suas pernas eram muito maiores e seu tamanho também, fiquei admirado com sua beleza. Talvez esse diferente pássaro fosse um sinal de que algo estranho iria acontecer.
Ok. Cheguei até a UFF e dei início ao trajeto de volta, pensando em dar uma esticada até a praia do Morcego. Quando estava em frente à Av. Litorânea, a uns duzentos metros da ilha da Boa Viagem, avistei uma espécie de bola preta que logo me chamou a atenção. Fui observando-a e remando ao mesmo tempo. Para meu espanto, quanto mais me aproximava do desconhecido objeto, mais ele se parecia com uma cabeça boiando com seu corpo afundado dentro d’água. Aproximei-me e confirmei que era realmente um corpo humano morto, grosseiramente chamado de defunto.
Fiquei assustado, sem reação. O corpo era de um homem, moreno, branco e que aparentava ter uns 30 anos, estava com um cordão no pescoço e parecia estar em início de decomposição (vi em suas costas uma grande mancha branca). Além do mais, ainda não boiava totalmente, sua cabeça boiava com o rosto e o corpo submerso, indicando que não estava dentro d’água há muito tempo. Não quis, em momento algum, encostar nele.
Passado o pânico inicial, tive que pensar o que fazer. Avistei um barco se aproximando de mim e pensei em para-lo para que ele passasse um rádio para alguma autoridade competente. Todavia, reconheci o barco. Sabia que aquele barco fazia um tour pela Baía com turistas estrangeiros. Ora, como estudante de turismo não poderia parar esse barco, pois sei do impacto de um imprevisto como esse na mente de um turista. Já os imaginei chegando aos seu lares dizendo: - Tive no Rio de Janeiro e em um tour pela Baía de Guanabara pude ver um defunto, que horror, nunca mais retorno.
Rapidamente, tomei a decisão de não parar esse barco. Passei bem perto dele, fingindo que nada tinha acontecido. Lá dentro, uns gringos felizes da vida acenavam para mim e tiravam fotografias. Mal sabiam eles de que havia um defunto por perto. Ao menos fiquei feliz por eles estarem se divertindo em nosso lindo Estado.
Quando esse barco passou, imediatamente fui ao quiosque mais próximo (o primeiro da Av. Litorânea, sentido Centro). Cheguei o mais próximo possível e assoviei para que alguém viesse falar comigo. Deu certo. Apareceu um rapaz loiro - possivelmente funcionário ou dono do quiosque – e o avisei sobre o defunto que estava boiando. Pedi para que ligasse para polícia e o orientei a dizer para os policiais localizarem o corpo pelo kayak, pois iria voltar para o fundo e re-encontrar o corpo. E fiz isso.
Quando reencontrei o corpo acenei para o quiosque. O corpo estava sendo levado pela maré para mais longe e eu ia junto. Ficava a uns 5 metros de distância dele. O tempo foi passando e nenhum sinal de ajuda ou resgate. Ao contrário, não vi nenhuma viatura policial pelo quiosque e nenhum sinal de resgate aéreo ou marítimo. Fiquei em vão acenando para o referido quiosque.
E o tempo foi passando: 20 minutos, 30 minutos, 40 minutos – não estava de relógio, então não posso precisar o tempo corretamente. Já estava cansado de ficar esperando sentado no kayak, minhas costas começava a doer.
Cansei de esperar. Resolvi fazer sinal para os catamarãs da travessia Charitas-Rio para que parassem; vissem o corpo e passassem um rádio. O primeiro catamarã passou, seguiu adiante. O segundo catamarã também. Acredito que eles me viram, mas eu era insignificante o suficiente para que nada fizessem. A sociedade capitalista não podia parar. Como uma maquina iria parar carregando poucas centenas de passageiros – indo ou voltando do trabalho - por causa de um insignificante ser, pedindo ajuda no meio do mar. Nem pensar, o tempo e o estresse das pessoas não permitiria isso. Alias, quando a segunda embarcação passou, além dos sinais, emiti um grito de desespero: - Porra, tem um defunto aqui. Mais uma vez em vão, mas que sujeito burro eu, até parece que alguém ia escutar alguma coisa com todos os vidros fechados e o alto barulho do motor.
Já não sabia mais o que fazer. Porém, ainda tinha esperança de que viria alguma autoridade competente, chamada pelo funcionário do quiosque. Gostaria muito de que o corpo fosse resgatado, pondo um fim ao drama de alguma família. O tempo passava, minhas costas doíam e... nada. Até que 15 minutos depois do meu grito de desespero observei um veleiro e acenei para ele, sua proa virou-se em minha direção. Pensei: - Pronto, acabou meu martírio.
No veleiro estavam duas pessoas, avisei a elas sobre o corpo e pedi para que passassem um rádio para a Capitania dos Portos ou alguma coisa parecida. Perguntei a eles se estavam vendo o defunto e eles disseram que sim. Então sai um pouco de perto do veleiro, já certificado que o resgate chegaria. Todavia, segundos depois, uma das pessoas do veleiro mandou eu me aproximar do barco. Aproximei-me e ele falou: - Pô irmão, não leva a mal, mas eu não vou passar o radio. Se eu fizer isso vou ter que esperar o resgate chegar, ficar como testemunha, talvez tenha até que ir a delegacia. Tenho um compromisso, se fosse alguém vivo precisando de ajuda, eu não ia negar socorro. Mas não há nada que eu possa fazer, já está morto. Deixa que vai parar em alguma praia.
Fiquei perplexo com essa atitude, mas aceitei-a, fazendo sinal de positivo. Afinal, eu não poderia obriga-lo a passar o rádio e cada um faz o que acha que é certo: ele pensava diferente de mim. Todavia, deu vontade de retrucar antes que esse homem partisse com o barco: - Você não vai parar porque não tem ninguém desaparecido na sua família. Mas não falei. Ele deu a partida no motor e rumou em direção ao Rio. Provavelmente, o barco não era dele e ele tinha que prosseguir seu trabalho - que deveria ser levar o barco do patrão para algum canto. Como ele ia explicar ao patrão o atraso, por que estava parado na Baía esperando um defunto ser resgatado? Nunca. Jamais.
Todas essa insensibilidade humana me assustou. Primeiro os catamarãs, agora esses tripulantes. Como já disse, o trabalho não nos permite parar; viva a máquina incessante, abaixo a solidariedade humana. Triste diagnóstico.
Pronto. Continuava eu sozinho, sentado no kayak, com minhas costas doendo. Apesar dos pesares, queria um final feliz para o episódio, então não desisti de chamar algum barco para que chamasse o resgate. Em tempo, já tinha perdido as esperanças de uma ajuda oriunda do telefonema (?) do quiosqueiro.
Estava inconformado com nós humanos, que, aos poucos, fomos perdendo a nossa sensibilidade e espírito em nome do trabalho e do consumo.
Desolado, ainda aguardava alguma coisa há uns poucos metros do corpo, já não agüentava mais olhar para ele. De repente, vi – pasmem – um animal emergindo a poucas dezenas de metros. Em seguida outro. Confirmei: eram botos-cinzas, que estão se (re)desenvolvendo na Baía de Guanabara. Há uns dois meses atrás tentei avistar esses animais de kayak, pois tinha lido uma reportagem no GLOBO falando de sua população na Baía – cerca de 100 indivíduos, segundo o Projeto Maqua da UERJ. Na ocasião, fique bem perto da entrada da Baía, mas não vi nada. Nem sequer sinal de botos.
E pensar que naquela hora, num momento completamente inesperado (ao lado de um defunto), eu iria ter meu encontro com essas doces criaturas. Apaixonado pela Biologia como sou, depois de ver esses dois animais, me afastei do corpo, remando na direção dos botos. Remei um pouco, parei e fiquei observando novas aparições. Repentinamente, começaram a aparecer vários botos, então tentei conta-los. Impossível. Vários indivíduos apareciam por todos os lados: sozinhos, em dupla ou em grupo. Vi botos menores, provavelmente filhotes. Acredito que estavam caçando devido a agitação de peixes menores na superfície.
Foi um espetáculo, momentos mágicos que me fizeram esquecer por hora o corpo boiando. Fui atrás deles. Parecia uma criança, dando gritos de alegria. Os botos não saiam muito d’água, apenas alguns mais viris e exibidos davam pequenos saltos. Pude ver bem de perto um grupo de seis nadando no mesmo ritmo. O barulho de sua respiração é incrível, um sopro muito sutil. Fiquei cerca de vinte minutos próximo a eles. Paralelamente, vi um barco, possivelmente de turismo, passando. Tentei fazer sinal para que os gringos pudessem compartilhar comigo esse encanto. Imaginei a cara deles ao verem golfinhos (botos) em plena Baía de Guanabara, iriam ter lembranças (positivas) inesquecíveis desse passeio de barco – ao contrario das lembranças nojentas que levariam se vissem um defunto. Depois de uns vinte minutos próximo aos animais, decidi ir embora, pois eles estavam indo mais para o meio da Baía. Dei adeus a meus amigos e parti, decidido a re-e-encontrar o corpo.
Remei em direção a minha casa, ainda procurando o corpo. Apoiava-me no kayak para ver se conseguia avista-lo mais do alto. Em vão. Demorei mais um tempo procurando. Mas, para o bem ou para o mal, não encontrei o corpo.
Guardei o kayak na garagem e voltei para minha residência. Disquei 193 e contei o que se passou comigo a um bombeiro, ele anotou meu telefone e falou que ligaria para mim em instantes. Foi o que aconteceu, um outro bombeiro falava comigo e perguntou o que eu achava de ele mandar uma equipe para checar. Eu respondi: - Não sou eu que tenho que saber se você deve ou não mandar a equipe. São vinte para as quatro, devo ter saído próximo do corpo umas duas e meia. O que sei é que ele ainda está boiando em algum lugar. O bombeiro respondeu: - Ta tranqüilo. Detalhe: não contei a ele sobre os botos, pois não acreditaria em mim, colocando em xeque minha emergência.
Mas o que mudou em mim? Repentinamente eu deixei de me preocupar com o corpo a ponto de abandona-lo? Definitivamente NÃO. O que aconteceu foi que em quanto eu tava no auge da minha irritação com as atitudes humanas; preocupado com o corpo e com nosso futuro, Deus me mostrou todo o seu esplendor através dessas criaturas divinas, que apesar dos pesares, insistem em habitar a poluída Baía, grande exemplo da nossa falta de sensibilidade. Se até a Baía resiste com sua diversa natureza, nós humanos também podemos resistir a insensibilidade. Nosso futuro está nas crianças – e nos filhotes.
Obs:
1- Hoje, sexta feira, há rumores de que um corpo foi encontrado de manha na praia da Boa Viagem; qualquer semelhança não é mera coincidência.
2- Ontem, ao me afastar dos botos, fiz uma prece por nós humanos, pela natureza e para que o corpo fosse encontrado logo. Ponto positivo, a priori Deus atendeu minhas preces.


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